← Voltar ao Radar
// Radar

Realidade Virtual na Saúde: o Que as Revisões Científicas Dizem sobre Treinar Antes de Operar

Uma metanálise publicada no BJS Open em 2022 reuniu 18 ensaios clínicos randomizados sobre treino em realidade virtual para colecistectomia laparoscópica, a retirada da vesícula por vídeo. Na comparação com quem não fez nenhum treino extra, quem treinou em RV terminou o procedimento, em média, 8,35 minutos mais rápido.

É um dos números mais citados por quem defende simulação imersiva na formação em saúde. É também um número que pede leitura cuidadosa, porque o que as revisões científicas dizem sobre RV é mais interessante, e mais limitado, do que o discurso comum do setor.

O que a evidência mostra

A revisão mais conhecida sobre o tema é a da Cochrane, publicada em 2013. Ela analisou 8 ensaios randomizados com 109 cirurgiões em formação e pouca experiência em laparoscopia. Em três desses estudos, com 49 participantes, o tempo de operação caiu cerca de 11,8 minutos depois do treino em RV.

A metanálise de 2022, bem mais recente, chegou a um número parecido: os 8,35 minutos vêm de oito estudos, com 115 participantes treinados em RV e 102 no grupo de comparação. Os autores também registraram menos erros durante a cirurgia no grupo de RV, mas os dados eram heterogêneos demais para serem somados.

Onde a evidência ainda é frágil

A própria Cochrane aponta que todos os estudos da revisão de 2013 tinham alto risco de viés, e que nenhum relatou complicações, qualidade de vida ou tempo de internação. Ou seja, o ganho aparece na sala de treino, mas o efeito no paciente não foi medido.

Na metanálise de 2022, a nota de desempenho pela escala GOALS não mostrou diferença estatisticamente significativa (diferença média de 0,91, p = 0,14). E, quando a RV foi comparada a outros tipos de simulação, e não a nenhum treino, não houve diferença relevante. Os autores concluem que os benefícios aparecem em ambiente de pesquisa, mas que não dá para assumir que o resultado se repita na rotina clínica.

Em oftalmologia o quadro é ainda mais cauteloso. Uma revisão Cochrane sobre cirurgia de catarata reuniu 6 ensaios com 151 médicos residentes. A certeza da evidência foi classificada como muito baixa em todos os desfechos. Contra a ausência de treino extra, pode haver benefício, mas incerto. Contra o treino convencional em laboratório, não há evidência suficiente de vantagem.

O que acompanhar daqui para a frente

O que as três revisões têm em comum é um pedido: estudos mais bem desenhados, com resultados que importam para o paciente, como complicações e tempo de recuperação, e não só tempo de execução em treino. É isso que vai separar a simulação imersiva que reduz erro real daquela que apenas impressiona na demonstração.

Até lá, a leitura mais honesta é esta: a realidade virtual já se mostra útil para encurtar a curva de aprendizado de quem tem pouca experiência, e é uma ferramenta de treino cada vez mais aceita. Mas o salto de “treina mais rápido” para “opera com mais segurança” ainda precisa de prova.

Realidade virtual Saúde Simulação clínica Treinamento cirúrgico Evidência científica
Brainzz Tecnologia · Curitiba, PR ← Ver todos os posts do Radar
// Vamos conversar

Quer entender como isso se aplica ao seu setor?

A gente acompanha de perto a automação e a tecnologia imersiva lá fora, e já traduz isso em simulação e treinamento aqui.